You and both♥

Porque eu sou fiel aos meus sentimentos. Vou estar com você quando eu realmente quiser estar. Vou te ligar quando eu quiser falar com você. Porque eu não passo vontade. E nem vou passar vontade de você. Não vou fazer joguinho. Eu me entrego mesmo. Assim. Na lata. ♥ you and i both You hold me in your hands, you won't let me fall, you steal my heart

e tu sussurras:
- não, não afastes a boca da minha orelha.
derrama dentro dela aquilo que não consegues dizer em voz alta.

e eu digo:
- as tuas mãos queimam-me a fala.

tu sorris, dizes:
- vem, sem medo, pela aridez do meu corpo.

no fundo de mim existe um poço onde guardo a tua imagem. é tempo de ta devolver. é tempo de te reconheceres nela.

Al Berto

O que não me corta não me serve.

O que não me ofende não me serve.

O que não me faz morrer não me serve.

Agora deito-me com os teus lábios e percorro neles a estrada da fé. Quem inventou a hipérbole não sabia que existia o teu corpo. A minha língua despe-te e tudo o que está à volta são eufemismos. Amo-te para perceber que quanto mais te amo mais fica por te amar.

O que me satisfaz para sempre não me serve.

Pedro Chagas Freitas

Quero-te às dez da manhã, e às onze, e às doze do dia que seja. Quero-te com toda a minh’alma e todo o meu corpo, às vezes, em tardes de chuva. Mas às duas da tarde, ou às três, quando me ponho a pensar em nós dois, e tu pensas na comida ou no trabalho quotidiano, ou nas diversões que te faltam, então ponho-me a odiar-te em surdina, com a metade do ódio que guardo para mim.

Depois volto a querer-te, quando nos deitamos e eu sinto que tu foste feita para mim, que mo dizem de algum modo teu joelho e teu ventre, que de tal minhas mãos me convencem, e outro lugar não há melhor que teu corpo para eu ir ou vir. Inteira, tu vens ao meu encontro e por um instante desaparecemos os dois, metemo-nos na boca de Deus, até eu dizer que tenho sono ou fome.

Todos os dias te quero e te odeio sem remédio. E há dias também, há horas, em que nem te conheço, em que me és tão estranha como a mulher alheia. Preocupam-me os homens, preocupo-me eu mesmo, minhas penas me distraem. É provável que não pense em ti por muito tempo.

Estás a ver, quem é que poderia querer-te menos do que eu, amor meu?

JAIME SABINES
(tradução: A.M., via Rua das Pretas)

- Chovia no sonho?

- Oh, Doutor, o senhor sofre mesmo de poesias, então chove nos sonhos?

- Eu, poesias?

- Não é de agora. O senhor já anda poetando há muito tempo. Por exemplo, quando o senhor me aconselha para eu cortar nas bebidas…

- Acha que isso é poesia?

- Então não é? Cortar-se na bebida? A gente pode cortar nas árvores, cortar na roupa, cortar sei lá onde, mas diga lá, Doutor, que faca corta um líquido? Só a faca da poesia.

Mia Couto
in Venenos de Deus, Remédios do Diabo

Queria dizer-te. Queria.
Queria olhar-te. Olhar-te com força – como se olha com força? E dizer-te.
Dizer-te que sim. Sempre sim. Desde o primeiro não que sim.
Dizer-te que quero. Olhar-te com força. Dizer-te. Queria.
Dizer-te. Negar o não. Negar o não que desde sempre – onde começou o sempre? – foi sim.
Dizer-te menti. Dizer-te fugi. Dizer-te parti.
Queria. Dizer-te aqui. Dizer-te agora. Dizer-te já.
Queria. Sempre queria.
Queria, amor. Amor.
O imperfeito. Queria. O imperfeito.
Amor.

Pedro Chagas Freitas

Alimentar o Amor



Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Chega-se sempre à primeira frase, ao primeiro número da revista, ao primeiro mês de amor. Cada começo é uma mudança e o coração humano vicia-se em mudar. Vicia-se na novidade do arranque, do início, da inauguração, da primeira linha na página branca, da luz e do barulho das portas a abrir.
Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Por isso respeito cada vez menos estas actividades. Aprendi que o mais natural é criar e o mais difícil de tudo é continuar. A actividade que eu mais amo e respeito é a actividade de manter.
Em Portugal quase tudo se resume a começos e a encerramentos. Arranca-se com qualquer coisa, de qualquer maneira, com todo o aparato. À mínima comichão aparece uma «iniciativa», que depois não tem prosseguimento ou perseverança e cai no esquecimento. Nem damos pela morte.
É por isso que eu hoje respeito mais os continuadores que os criadores. Criadores não nos faltam. Chefes não nos faltam. Faltam-nos continuadores. Faltam-nos tenentes. Heróis não nos faltam. Faltam-nos guardiões.

É como no amor. A manutenção do amor exige um cuidado maior. Qualquer palerma se apaixona, mas é preciso paciência para fazer perdurar uma paixão. O esforço de fazer continuar no tempo coisas que se julgam boas — sejam amores ou tradições, monumentos ou amizades — é o que distingue os seres humanos. O nascimento e a morte não têm valor — são os fados da animalidade. Procriar é bestial. O que é lindo é educar.
Estou um pouco farto de revolucionários. Sei do que falo porque eu próprio sou revolucionário. Como toda a gente. Mudo quando posso e, apesar dos meus princípios, não suporto a autoridade.

É tão fácil ser rebelde. Pica tão bem ser irreverente. Criar é tão giro. As pessoas adoram um gozão, um malcriado, um aventureiro. É o que eu sou. Estas crónicas provam-no. Mas queria que mostrassem também que não é isso que eu prezo e que não é só isso que eu sou.
Se eu fosse forte, seria um verdadeiro conservador. Mudar é um instinto animal. Conservar, porque vai contra a natureza, é que é humano. Gosto mais de quem desenterra do que de quem planta. Gosto mais do arqueólogo do que do arquitecto. Gosto de académicos, de coleccionadores, de bibliotecários, de antologistas, de jardineiros.

Percebo hoje a razão por que Auden disse que qualquer casamento duradoiro é mais apaixonante do que a mais acesa das paixões. Guardar é um trabalho custoso. As coisas têm uma tendência horrível para morrer. Salvá-las desse destino é a coisa mais bonita que se pode fazer. Haverá verbo mais bonito do que «salvaguardar»? É fácil uma pessoa bater com a porta, zangar-se e ir embora. O que é difícil é ficar. Isto ensinou-me o amor da minha vida, rapariga de esquerda, a mim, rapaz conservador. É por esta e por outras que eu lhe dedico este livro, que escrevi à sombra dela.
Preservar é defender a alma do ataque da matéria e da animalidade. Deixadas sozinhas, as coisas amarelecem, apodrecem e morrem. Não há nada mais fácil do que esquecer o que já não existe. Começar do zero, ao contrário do que sempre pretenderam todos os revolucionários do mundo, é gratuito. Faz com que não seja preciso estudar, aprender, respeitar, absorver, continuar. Criar é fácil. As obras de arte criam-se como as galinhas. O difícil é continuar.

Miguel Esteves Cardoso
in ‘As Minhas Aventuras na República Portuguesa’

A solidão não é forçosamente negativa, pelo contrário, até me parece um privilégio. Talvez a minha solidão seja excessiva, mas eu detestei sempre as coisas mundanas. Estar com as pessoas apenas para gastar as horas é-me insuportável.

Eugénio de Andrade
in Rosto Precário

Assusta-me o exagero de um sorriso, os buracos preenchidos com palavras intoleráveis. Assusta-me a febre de inteligência, os diálogos recalcados que suspendem o silêncio. E não são as palavras que apagam as distâncias, e não são as respostas que apagam as perguntas. Gosto do enigma de não saber da infância, do milagre de um beijo. Até o paraíso precisa de morte. Gosto do toque perigoso do teu suor, da respiração de víbora do desejo. A catástrofe é o abraço. E só as catástrofes me fascinam.

António de Deus-Rosto

Eu nem sequer gosto de escrever. Acontece-me às vezes estar tão desesperado que me refugio no papel como quem se esconde para chorar. E o mais estranho é arrancar da minha angústia palavras de profunda reconciliação com a vida.

Eugénio de Andrade

“Ou uma louca ou uma mulher apaixonada; e se calhar são a mesma coisa; sem tirar nem pôr;
uma mulher apaixonada é uma mulher louca; e eu tenho orgulho em estar assim; em ser assim;
amo-te mas não posso amar-te; amo-te como não te posso amar;
e estar aqui assim é a minha forma de me alimentar de ti; a forma possível de me alimentar de ti; de te saborear sem correr riscos; estou aqui como poderia estar em outro lado qualquer;
não há risco; e eu não quero correr riscos;
preciso demais de mim para poder ser toda de ti.”

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“In Sexus Veritas”, de Pedro Chagas Freitas

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