You and both♥

Porque eu sou fiel aos meus sentimentos. Vou estar com você quando eu realmente quiser estar. Vou te ligar quando eu quiser falar com você. Porque eu não passo vontade. E nem vou passar vontade de você. Não vou fazer joguinho. Eu me entrego mesmo. Assim. Na lata. ♥ you and i both You hold me in your hands, you won't let me fall, you steal my heart

Estamos os dois em trincheiras diferentes mas ainda assim do mesmo lado. Tu queres amar-me à tua maneira, eu quero amar-te à minha. Mas ambos queremos que este amor continue.
E o que é a vida senão lutar todos os dias para que o amor continue?
São tão estúpidas as pessoas que não são estúpidas.
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in “Prometo Falhar”, a mais recente obra de Pedro Chagas Freitas.

“Uma língua sobre a outra, outra língua sob a uma. E as duas línguas sem saberem se existe vida para além do toque.
Todos os beijos são dois corpos inteiros por dentro de duas línguas.”
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“In Sexus Veritas”, de Pedro Chagas Freitas

“O abraço é o momento em que não se sabe de quem são os braços de quem.
Todos os abraços são apertados e apertadores em percentagens iguais. O abraço ao outro foi a melhor forma que a natureza encontrou de te poderes abraçar quando estás feliz.”

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“In Sexus Veritas”, de Pedro Chagas Freitas

É tão incompreensível o que te gosto, como se acontecesse o que me acontece só para além de ti, como se só acontecesse o que acontece contigo, as pessoas ao lado, as luzes, a televisão ligada, tanta gente que eu amo mas que não são o meu lugar no mundo.

Diz por favor aos teus pais que inventaram Deus.
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in “Prometo Falhar”, a mais recente obra de Pedro Chagas Freitas.

– O que estás a desenhar?
– Deus.
– Mas ninguém sabe qual é o aspecto de Deus.
– Esperem uns segundos que já ficam a saber.

Foi assim que conheci o Zambé, o puto de quem hoje vos quero falar. Miúdo traquina, uma cabeça linda, a vida toda no interior dos olhos quando me olhava, naquela sala daquele colégio, e quando me fazia crer que só não existia aquilo que não se imaginava. Com o Zambé aprendi a ser criança e estimo bem que não haja ensinamento mais valioso do que esse.

– O que queres ser quando fores grande?
– Pequeno outra vez.

E foi. Foi-o mesmo. Ainda há uns meses, quando me cruzei com ele, ele lá estava, o mesmo olhar, a mesma vontade de descobrir tudo pela primeira vez, levava uma criança ao colo e eu percebi que só foi pai para ter uma desculpa para não crescer.

– Então o que fazes?
– Invento.
– O que inventaste hoje?
– Uma nova maneira de abraçar.

Ensinou-me logo ali aquele abraço, a rua toda imóvel a rir-se de nós, alguns olhares de escárnio, e o Zambé e eu aos saltos numa forma de abraço que ninguém entendia mas que sabia bem comó caraças. No final das contas, o que levamos da vida é aquilo que ninguém entende mas que sabe bem comó caraças.

– O que estás a fazer?
– A ensinar o meu filho a ler.
– Mas tem dois anos.
– Sim, mas ainda vai a tempo.
– E já sabe as letras?
– Quem precisa de saber as letras para saber ler?

E lá ficou ele, aquele sorriso inconsequente como só as pessoas livres conseguem ter, uma criança de dois anos ao colo no meio do jardim público onde toda a gente pensava em contas, em crises, em coisas tão insignificantes como sobreviver, esquecidas de que o mais importante estava a acontecer e chamava-se vida, e já agora o sol que estava bem alto a brilhar. No final das contas, o que levamos da vida é ela acontecer e o sol bem alto a brilhar.

– O que lhe vais dar no Natal?
– Estava a pensar dar-lhe um beijo.

Com toda a seriedade do mundo, Zambé brincava, talvez estivesse nisso o segredo para a felicidade das crianças, há lá algo mais sério para uma criança do que brincar?

– Gostava de assistir ao meu funeral.
– Mas porquê?
– Era a prova de que ainda estava vivo.

Zambé era, passe o pleonasmo, uma criança filósofa.

– Tens medo da morte.
– Não.
– Porquê?
– Quando ela chegar sei que não me vai apanhar vivo.

E não apanhou.
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in “Prometo Falhar”, a mais recente obra de Pedro Chagas Freitas.

Guardarás numa caixinha
o que não fiz por ti,
a mão que não chegou à sobrancelha
que nem aflorou,
o beijo repetido nas palavras
sem que o tacto
o multiplicasse qual se desejava.

Nessa caixa de nada não tardará depois
a não estares só tu,
a não estar só eu,
a estarmos só os dois.

Pedro Tamen

És parecida com a Terra. Essa é a tua beleza.
Era assim que dizias.

E quando nos beijávamos e eu perdia respiração e,
entre suspiros, perguntava: em que dia nasceste?

E me respondias, voz trémula:
estou nascendo agora.

E a tua mão ascendia
por entre o vão das minhas pernas
e eu voltava a perguntar: onde nasceste?

E tu, quase sem voz, respondias:
estou nascendo em ti, meu amor.

Era assim que dizias.

Tu eras um poeta
Eu era a tua poesia.

Mia Couto

NO FIM DE CONTAS
crónica de Rui Miguel Mendonça
para a Fábrica de Escrita

É só fazer as contas. Basta não fazermos de conta para voltarmos a dar conta certa. Não percebo. A regra dos três estragou tudo e a vida deixou de ser simples. Eu, um pró da matemática, e as contas que passaram a ser contras. So(a)mo
tu + eu
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, e a calculadora dá- me erro, não sai como resultado o número dois. Tu mais eu igual ao que já fomos. E o pior é que não foi só isso que mudou. Já poucas contas me saem bem, e acho que fizemos falhar a mais exata das ciências. E tu nem deste conta.
Basta não fazermos de conta para voltarmos a dar conta certa. Calculei a raiz quadrada dos teus beijos, somei tudo o que nos beijámos e, quando esperava o infinito, a calculadora voltou a dar erro. Não desisti. Não desisto. Contei uma a uma as tuas sardas até chegar a trinta e oito, contei-as, multipliquei-as por dez até mil. Multipliquei-as por dez até mil, o número de dias que quero partilhar contigo. Nada. A calculadora não funciona e nem calculas a vontade que tenho em mandá-la à merda. Tentei procurar alguma lógica em tudo isto, e a única resposta que encontrei foi amor. AMOR, a loucura, a pior das loucuras, que cura tudo e não cura nada.
Espera. Se calhar se já entendo, não muito, mas já entendo, agora não somos uma soma, somos uma divisão, e entre tu e eu não há nada, se calhar já entendo, não muito, mas já entendo, eu divido-me por ti e, como resultado, uma alma – feita em pedaços – empenhada em multiplicar-se contigo e a procurar abrigo nos teus parêntesis.
Uma operação (coração aberto e sem calculadora) e na ordem dos fatores altera-se o produto. Poderíamos ter começado com um três para acabar com um dois, e não o contrário. É só fazer as contas. Afinal de contas sou um solitário, que dentro em breve será um zero à esquerda, a fazer número neste mundo. Conto-te tudo quando voltares. Não sei se já te disse, mas basta não fazermos de conta para voltarmos a dar conta certa.

Amavam-se como se ama um orgasmo. Viviam o que tinham para viver, sentiam o que tinham para sentir. E partiam. Não havia perguntas difíceis nem respostas desnecessárias. Sabiam que aquilo, como tudo, era passageiro. E faziam questão, por isso, de o tornar eterno.

Pedro Chagas Freitas

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.

Sebastião Alba

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